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sábado, 1 de agosto de 2009

A gripe suína e suas relações-lições - Por Eduardo Ribeiro Mundim

Após algumas semanas, a gripe suína, ou influenza H1N1, vai caindo na rotina. Sua mortalidade, até agora, parece ser menor que a da gripe comum. Informação verdadeira, mas que precisa de cautela na sua interpretação: a mortalidade é pequena, mas o que ocorrerá se milhões forem infectados?

No seu início, circulou pela internet a foto de uma criança “beijando” um porco, com a legenda “Assim começou a gripe suína”. Logo a Organização Mundial de Saúde (OMS) mudou o nome, para poupar o comércio de carne suína. A transmissão não se faz por meio da carne de porco, mas a associação da carne com uma doença transmissível afetaria os negócios, sem dúvida.

O que não foi divulgado de modo amplo é como o vírus foi relacionado àquele animal. Segundo a repórter especializada Laurie Garret, em artigo publicado há dois meses,1 o H1N1 é um vírus que carrega em si partes do código genético de três vírus: um humano, um suíno e um aviário. Ou seja, o vírus tem uma alta capacidade de mutação, de se transformar em outro, a partir daquilo que ele encontra no ambiente. Na sua evolução, a interação entre humanos e animais, potencializada pelo confinamento de grande quantidade de animais em áreas reduzidas, desencadeou um novo vírus (o atual), que já circulava há alguns anos, mas em locais isolados. A famosa gripe espanhola, de 1918, que matou estimados 100 milhões de pessoas em 18 meses, era uma variante do H1N1 que havia sido transmitido do homem para o porco e deste retornado.

Hoje a facilidade de locomoção contribui para a disseminação de qualquer doença transmissível, em questão de horas. É o preço de nossa atual sociedade: produção de alimentos de origem animal em escala industrial (um ambiente favorável à evolução de diversos vírus, no qual circulam funcionários muitas vezes mal pagos e sem equipamentos de segurança individual), associada à nossa capacidade de rápida circulação.

E como respondemos a isto? Os governos devem informar, sem disseminar pânico (sempre indesejável); medidas protetoras devem ser tomadas, sem gerar preconceito. Mudaremos nossos hábitos de viagem? Reduziremos o consumo de carne na tentativa de reduzir o número de animais confinados?

Nos Estados Unidos houve uma onda de xenofobia contra os mexicanos, supostamente a origem da atual epidemia. Contudo, o vírus foi isolado pela primeira vez em solo norte-americano. Como os cristãos de lá se comportaram? Como os profissionais cristãos especializados em infectologia e epidemiologia transmitiram informações?

O que fez o México, uma economia que não está nas melhores situações? Fechou escolas, locais públicos, proibiu eventos. Houve queda de arrecadação por parte do governo e queda de rendimentos nos locais turísticos, entregues às moscas. Quantas vidas foram salvas porque o governo mexicano decidiu que pessoas são mais importantes que negócios?

A Copa Libertadores da América ficou maculada pela recusa do São Paulo em ir ao México, e a COMEBOL lavou as mãos, como se não fosse problema seu. Agora, o Cruzeiro vai a Buenos Aires. Dois pesos e duas medidas...

Quais as possíveis causas de diferentes letalidades entre diversos países? Uma delas é a capacidade do Estado de proteger seus cidadãos (medicina preventiva) e de tratá-los com eficiência. O Estado pratica a boa medicina preventiva quando provê saneamento básico a todos, nutrição adequada e qualidade de vida.

Curiosamente, segundo a revista “Radis”,2 a OMS não incentiva o uso de antivirais genéricos, mas apenas aqueles comercializados por duas gigantes farmacêuticas. Houve até uma tentativa internacional de classificar os medicamentos genéricos como “falsificações”...

Em questões de saúde, o desnível tecnológico ameaça vidas. Pouquíssimos países têm a capacidade de rápido reconhecimento de novos vírus, e o Brasil não é um deles. O medo norte-americano de terrorismo biológico atrasou o reconhecimento do que ocorria no México. Não é à-toa que o Brasil propôs recentemente que os sequenciamentos genéticos de vírus sejam declarados patrimônio mundial.

Além da tarefa de eleger seus líderes, a sociedade deve se informar melhor (precisamos de repórteres habilitados, experientes, bem pagos), discutir mais (por meio de fóruns de discussão com moderação equilibrada, com capacidade de síntese) e agir corretamente (mesmo que isso implique em perda de pequenos ou grandes luxos do dia-a-dia) -- se não quiser ser responsável pelo seu auto-holocausto.

Notas
1. www.newsweek.com/id/195692
2. www4.ensp.fiocruz.br/radis/82/02.html

* Eduardo Ribeiro Mundim é médico endocrinologista, co-editor da página www.bioeticaefecrista.med.br e responsável pela área de bioética dos Médicos de Cristo.

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sábado, 4 de julho de 2009

Tire suas dúvidas sobre o risco e a prevenção da nova gripe

Conheça os sintomas, como ocorre o contágio e como evitá-lo.
Já há drogas capazes de combater o vírus, diz órgão americano.

A gripe A (H1N1) é uma doença respiratória causada por um vírus influenza tipo A cujos "ancestrais" causam regularmente crises de gripe em porcos. Ocasionalmente, o vírus vence a barreira entre espécies e afeta humanos. O vírus da gripe suína clássica foi isolado pela primeira vez num porco em 1930. Desde então, o patógeno sofreu novas recombinações e se tornou mais capaz de infectar pessoas. Saiba o que sabemos sobre essa doença.

Como a nova gripe mata?

Na verdade, qualquer tipo de gripe pode matar, em especial pessoas com sistema imune (de defesa do organismo) enfraquecido. A nova gripe parece ser capaz de afetar gravemente pessoas com sistema imune mais forte, ao menos em certos casos. O principal risco associado à doença é uma inflamação severa dos pulmões, que pode levar à insuficiência respiratória, ou seja, incapacidade de respirar direito. Outras complicações sérias têm a ver com lesões severas nos músculos, que podem levar a problemas nos rins e no coração, e mesmo, mais raramente, meningites e outros problemas no sistema nervoso central. Em todos esses casos, pode ocorrer a morte.

A OMS declarou que o vírus já causa uma pandemia no mundo. Isso significa que haverá alto grau de mortalidade por causa da gripe?

Não. O conceito de pandemia se refere ao grau de espalhamento da doença ao redor do mundo -- no caso, transmissão sustentada, ou seja, contínua do vírus, em vários continentes. O fato de haver uma pandemia não significa que todos os que adquirem a infecção morrem. Segundo os últimos dados da Organização Mundial da Saúde, menos de 0,5% das pessoas com infecção confirmada pela nova forma de H1N1 acabaram morrendo. Como cerca de 30% dos que adquirem gripe não apresentam sintomas, e levando em conta que nem todo mundo vai até o médico para relatar a infecção, a porcentagem real de mortos deve ser menor ainda.

Isso, no entanto, não é motivo para falta de cuidado. Quanto maior o número total de pessoas que forem contaminadas pelo vírus, maior será o número de mortes. E, como poucas pessoas possuem defesas inatas contra essa nova forma do patógeno, o espalhamento não-contido do vírus poderá matar muita gente, em especial entre os que têm organismo mais frágil.


Qual é o risco de uma situação de forte avanço da gripe no Brasil?

Ainda é cedo para dizer com certeza. Por sorte, a transmissão do vírus no país aparenta, por enquanto, ser limitada, restringindo-se a pessoas que viajaram para o exterior, para locais onde há focos mais vivazes da nova gripe, ou a pessoas que tiveram contato com os que contraíram a doença fora do país. Isso significa que ainda não existe a chamada transmissão sustentada, ou seja, aquela na qual o vírus circula de forma constante e ininterrupta dentro de uma população. No entanto, isso pode mudar a qualquer momento.

O vírus, se infectar grávidas, pode causar problemas de desenvolvimento em fetos?

Não. O grande problema enfrentado por uma vítima grávida é outro: a relativa debilidade do sistema de defesa de seu organismo perto de outras pessoas. É por isso que a gripe em grávidas é mais perigosa, podendo colocar em risco a vida da mãe e do futuro bebê.

Quem pega a gripe uma vez pode ser infectado por ela novamente mais tarde?

Não. O organismo cria defesas contra o vírus. No entanto, se houver uma mutação significativa na cepa, alterando as características que o causador da doença usa para invadir o organismo, é como se fosse uma nova onda de gripe -- e aí a doença pode acontecer de novo.

Quantos vírus de gripe de origem suína existem?
Como todos os vírus de gripe, os suínos também mudam constantemente. Os porcos podem ser infectados por vírus de gripe aviária e humana. Quando todos contaminam o mesmo porco, pode haver mistura genética e novos vírus que são uma mistura de suíno, humano e aviário podem aparecer. No momento, há quatro classes principais de vírus de gripe suína do tipo A são H1N1, H1N2, H3N2 e H3N1.

Como os seres humanos pegam vírus de origem suína?

Normalmente, esses vírus não infectam humanos. Entretanto, vez por outra, mutações no vírus permitem que eles contaminem pessoas. Na maioria das vezes, os contágios acontecem quando há contato direto de humanos com porcos. Mas também já houve casos em que, após a transmissão inicial do porco para o homem, a partir dali o vírus passou a circular de pessoa para pessoa. Foi o caso de uma série de casos ocorridas em Wisconsin, EUA, em 1988. Nesses casos, a transmissão ocorre como a gripe tradicional, pela tosse ou pelo espirro de pessoas infectadas.

Consumir carne de porco pode causar a nova gripe?

Não. Ao cozinhar a carne de porco a 70 graus Celsius, os vírus da gripe são completamente destruídos, impedindo qualquer contaminação.

O que significa a palavra "pandemia" e os níveis de perigo da OMS?

O termo "pandemia" se refere a uma epidemia de proporções globais, no qual há surtos de uma dada doença de forma "sustentável" (ou seja, sem interrupção da cadeia de transmissão no horizonte) em vários países e em mais de um continente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) usa uma escala de seis fases para caracterizar a transmissão dos vírus influenza (da gripe) pelo planeta.

Na fase 1, a transmissão só ocorre entre animais.

A fase 2 se caracteriza pelos primeiros relatos de transmissão do vírus de animais para seres humanos.

Pequenos grupos de casos entre humanos definem a fase 3. Nela, no entanto, a transmissão de pessoa para pessoa ainda não é eficiente no grau necessário para que a comunidade inteira onde vivem os infectados esteja em risco.

Na fase 4, a dinâmica da infecção é sustentável o suficiente para causar surtos afetando comunidades inteiras. O risco de pandemia é grande, mas não 100% certo.

A fase 5 corresponde à transmissão de pessoa para pessoa em mais de um país, indicando uma pandemia iminente.

Finalmente, na fase 6, a pandemia está caracterizada.

O que fazer para evitar o contágio?

O CDC (Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA) fez algumas recomendações para evitar a doença.

- Cubra seu nariz e boca com um lenço quando tossir ou espirrar. Jogue no lixo o lenço após o uso.

- Lave suas mãos constantemente com água e sabão, especialmente depois de tossir ou espirrar. Produtos à base de álcool para limpar as mãos também são efetivos.

- Evite tocar seus olhos, nariz ou boca. Os germes se espalham deste modo.

- Evite contato próximo com pessoas doentes.

- Se você ficar doente, fique em casa e limite o contato com outros, para evitar infectá-los.

A gripe é transmitida para animais domésticos, como canarinhos, cães, papagaios e gatos?

Muito provavelmente, não. É cedo para dizer que outros animais estão imunes, mas a característica desse vírus é de transmissão entre suínos -- e agora entre humanos. Normalmente, aves domésticas são contaminadas por outros tipos de vírus. Já cães se infectam por outro tipo de influenza.

Quais são os sintomas da gripe suína?

Os sintomas são normalmente similares aos da gripe comum e incluem febre, letargia, falta de apetite e tosse. Algumas pessoas com gripe suína também tiveram coriza, garganta seca, náusea, vômito e diarreia.

Como se faz o diagnóstico de gripe suína?

Para identificar uma infecção por um vírus influenza do tipo A, é preciso analisar amostras respiratórias do paciente durante os primeiros 4 ou 5 dias da doença -- quando uma pessoa infectada tem mais chance de estar espalhando o vírus. Entretanto, algumas pessoas, especialmente crianças, podem manter o vírus presente por dez dias ou mais. A identificação do vírus é então feita em teste de laboratório.

O consumo de vitamina C ou outras medidas para melhorar a resistência do organismo podem ajudar na prevenção?

Provavelmente não muito, diz o biólogo Atila Iamarino, da USP, que faz doutorado sobre a evolução de vírus como o HIV. "A verdade é que não se sabe se o consumo de vitamina C realmente aumenta a resistência ao vírus. O organismo da pessoa pode estar bem preparado, mas, se as características do vírus nunca tiverem sido encontradas pelo sistema imune, existe o risco de infecção", afirma.

Como é feito o tratamento?

"Existem duas linhas de medicamentos. Uma delas, a amantadina, impede a entrada do vírus nas células humanas. A outra, de medicamentos como o Tamiflu [oseltamivir], tenta barrar a saída do vírus de uma célula quando ele tenta infectar outras", explica o biólogo da USP.

A má notícia, diz Iamarino, é que o H1N1 já se mostrou resistente à primeira classe de remédios. Por enquanto, o oseltamivir ainda parece ser capaz de agir contra ele.

Você pode tomar as atuais vacinas contra a gripe?

Sim. A recomendação é sempre essa, pois essas vacinas ajudam a combater a gripe tradicional.

As vacinas contra a gripe têm alguma influência na proteção contra a nova gripe?

De acordo com o pesquisador da USP, existe a possibilidade de essas vacinas oferecerem proteção parcial contra o vírus proveniente de porcos. No entanto, mesmo que isso aconteça, certamente a formulação delas não será a ideal. "Não sabemos, por exemplo, para que lado vai caminhar a variabilidade genética do vírus suíno. Normalmente, ao produzir uma vacina, você já leva em conta o conhecimento que tem do vírus para tentar cobrir a variação futura dele e alcançar o máximo possível de proteção", diz Iamarino.

O que estão fazendo com estas máscaras descartáveis que vemos nos passageiros de aeroportos? Não seria necessária uma coleta especial para evitar contaminação?

O material de doentes internados em hospitais tem o descarte especial no local. Mas, no caso da maior parte dessas pessoas que estão usando máscaras, o material é para proteção. O pessoal dos voos que vêm com máscara a usam por precaução. Elas podem ser dispensadas num lixo de ambiente, num saco de lixo normal. Dos casos suspeitos, há orientação de jogar o material no hospital, devidamente acondicionado.

O que os cruzeiros marítimos estão fazendo para não terem surtos de gripe dentro dos navios?

Normalmente, o pessoal nos cruzeiros, a tripulação e os passageiros entram em um determinado ponto e têm um trajeto definido. Se estão saindo do Brasil e vão para a Europa, em locais onde não há gripe, não há como acontecer a transmissão. Se vão para lagum local de risco, devem evitar e cancelar o passeio. A bordo do navio, os cuidados são simples: lavagem de mãos, cuidado com pessoas com doenças respiratórias.

E os portos?

O pessoal de portos, aeroporto e fronteira, há dois anos, participam de treinamentos para situações de pandemia. Na época, a preocupação era com gripe aviária. Eles receberam treinamento específico desde então.

Fontes do Portal G1: CDC, Datasus, OMS, Atila Iamarino (biólogo, doutorando em evolução de vírus, USP, do blog Rainha Vermelha), e Nancy Junqueira Bellei, médica infectologista, coordenadora do setor de pesquisa em vírus respiratórios da Unifesp

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